IMPORTANTE:
O texto a seguir é a reprodução de uma matéria fictícia baseada no livro do autor Ernest Hemingway, O Velho e o Mar. Foi escrito segundo trabalho proposto pela cadeira de Redação Jornalística, da Faculdade de Jornalismo da PUCRS. A cidade e província citadas no texto são reais, mas não fazem parte do livro de Hemingway, que foi utilizado apenas como base para a criação de outro enredo, sem compromisso ou fidelidade para com o original O Velho e O Mar.

Por Nicole Pandolfo
O sol já beirava o horizonte da cidade costeira de Cárdenas quando encontrei sentado em frente à casa simples de madeira acinzentada, na beira do mar, o Sr. González. Aos 69 anos, o homem de estatura média, cabelos curtos e grisalhos, mas de corpo rijo, resultado de muitos anos de pescaria, costuma passar os finais de tarde confortavelmente acomodado na cadeira de palha. É da varanda da sua velha casa que Manolin González mantém o olhar absorto direcionado ao mar à sua frente, na hora em que eu me aproximava com cautela, enquanto conferia o endereço que haviam me repassado. Ao reparar meu movimento em direção a ele, Sr. González pareceu sair de um transe e imediatamente caminhou a passos firmes em minha direção com um sorriso cansado. Estava a minha espera.
À beira dos 70 anos, Manolin, como prefere ser chamado, revelou o espírito confiante e jovial enquanto me recepcionava. Com uma segurança de quem sabe o que está fazendo, sugeriu que nossa conversa acontecesse ali mesmo, na varanda, sob a luz avermelhada do pôr-do-sol, onde ainda soprava uma brisa fraca, mas suficiente para amenizar o calor de 35 graus. Ele sabia por que eu estava ali, e sentia-se orgulhoso por ser um dos únicos pescadores que conheceu e conviveu com o velho Santiago.
Há anos contada de pai para filho entre os moradores de Cárdenas, a história do velho Santiago ganhou ares fabulosos e status de lenda, conforme as versões se espalhavam além das fronteiras de Matanzas, província natal de Manolin. Mas ele garante a sua versão: cresceu ao lado do velho pescador.
Recostado na cadeira, com o olhar de volta para o mar, Manolin Gonzáles retorna aos seus 12 anos. Era 1952 e Cárdenas ainda era um vilarejo de pescadores onde o pequeno Manolín recebera suas primeiras lições de pesca. E seu principal mestre era o solitário e experiente Santiago. De corpo magro, porém firme, a pele manchada e enrugada, sofrida pela ação de anos exposta ao sol caribenho, o humilde pescador enfrentava tempos de dificuldade. Os peixes pareciam evitar suas iscas. Conta Manolin que, todas as manhãs, logo que o sol apontava seus primeiros raios, visitava o velho com algum pão e café que conseguia filar na venda do vilarejo. “Garantia o café da manhã quando explicava que era para Santiago. Os moradores mantinham um respeito para com o velho”. O jovem sabia que aquela poderia ser a última refeição do ancião durante longas horas em que passaria à espera de um presente significativo trazido pelo mar.
Mas naquele ano, o mar parecia punir Santiago. Há meses sem apanhar um só peixe, na comunidade local começavam correr os boatos: Santiago era um salao, um azarento da pior espécie. E por essa crença, Manolin foi impedido pelos pais de acompanhar o velho nas suas pescarias. “Eu nunca acreditei naquelas crendices. Gostava do velho, aprendia com ele e sabia que poderia ajudá-lo a pegar algum peixe. Mas ainda era uma criança, tinha que obedecer a meus pais.”
Com um ar de contador de histórias, Manolin Gonzáles trocou de posição na cadeira. Inclinando-se para frente, dava a entender que um novo e importante capítulo da história estava para começar.
Santiago nunca perdia a fé. E todas as manhãs, ao sair para o mar, depositava sua fé nos seus “irmãos peixes”, mais do que nos homens. Manolin relata com orgulho o respeito com que seu velho mestre tratava a pesca: “Ele considerava os animais marinhos seres nobres! Conversava com os peixes. Mas mesmo assim precisava matá-los”.
Então, em uma manhã, Santiago se preparou para mais um dia de pesca. Manolín conta ressentido que não pôde fazer companhia ao velho e isso, até hoje, lhe causa remorso. O sentimento não é infundado. Nas próximas horas, Santiago iria travar a batalha que repercutiria por décadas no imaginário da população pesqueira de Cárdenas e, cuja verdadeira versão, segundo Manolin, “só foi confidenciada a mim”.
Visivelmente sonolento desde que o sol havia se posto, Manolin González começava a encurtar as respostas às perguntas que eu lhe direcionava, e os detalhes dos relatos eram cada vez mais vagos.
Certo foi que o velho e seu barco não foram avistados por três dias. Santiago e a rústica embarcação, desprovida de qualquer nova tecnologia pesqueira, foram considerados perdidos. “Eu fiquei muito apreensivo”, relatou Manolin. “Confiava na capacidade do meu velho e no fundo sabia que ele estava bem, mas todos perderam as esperanças. Eu não. Ele havia me dito naquela manhã que traria um peixe, que seu tempo de salao tinha terminado. Eu acreditei.” Talvez o mar tenha compreendido as preces que Santiago lhe dirigiu. O velho deveras fisgou um peixe. Um espadarte de tamanho descomunal, responsável por ter reavivado o jovem Santiago. Mas não passaria muitas horas para que o presente do mar fosse tomado de volta. A juventude do velho foi sugada pelos tubarões que cercaram o barco e devoraram o espadarte. “Ninguém nunca vai poder imaginar a força que o velho Santiago empregou contra aqueles tiburones”. O pesar na voz de Manolin quando pronunciou estas palavras era notável.
Conta Manolin que o velho nunca mais alimentou sua relação com o mar. “O azul da água não refletia mais nos olhos de Santiago como antes. Eles ficaram opacos”. Mas o jovem manteve o companheirismo fiel ao velho. Durante os cinco anos que restaram ao desiludido pescador, Manolin foi seu pupilo e seu neto. Cinquenta e sete anos depois de Santiago perder a fé no mar, o hoje velho Manolin preserva a memória do homem que, segundo ele, mais soube entender respeitar o que o oceano representa ao ser humano.
Não fosse o fato de dezenas de moradores do vilarejo terem presenciado a chegada de Santiago junto da carcaça do que restara do gigantesco espadarte, a história seria julgada como de pescador. Manolin González respira fundo e levanta da cadeira. A história do velho e o mar havia terminado.